Entregador de açaí e estudante: quem é o lutador de Prudente que superou lesões e venceu atleta da equipe de Popó
De Presidente Prudente (SP), aos 25 anos, Lucas Serafim Santos tem 100% de aproveitamento no boxe profissional. Recentemente, venceu atleta da equipe de Popó, tetracampeão mundial do esporte.
Quem recebe um açaí via delivery em Presidente Prudente (SP) ou cruza com um jovem apressado entre as aulas da faculdade e o trabalho na academia talvez não imagine que está diante de uma das grandes promessas do boxe profissional brasileiro.
Com apenas 25 anos, Lucas Serafim Santos vive a rotina de milhares de brasileiros que se desdobram em diversas funções para conquistar os próprios objetivos. Ainda assim, já mostrou que todo esse esforço o preparou para desafios maiores.
No domingo (15), Lucas conquistou a segunda vitória como profissional ao derrotar João Victor, atleta da equipe do tetracampeão mundial Acelino Popó Freitas, durante o Fight Music Show 10, em Paranaguá (PR). O combate, pela categoria meio-médio, terminou com decisão unânime dos árbitros.
Antes de se firmar na modalidade, Lucas passou por diferentes esportes, sem se adaptar. Ele tentou o atletismo, o boxe chinês (sandá) e o jiu-jítsu, mas não se identificou com nenhum deles.
“O boxe entrou na minha vida sem a intenção […]. Eu comecei com atletismo, mas não me dei bem. Parti para o boxe chinês, o sandá, mas também não me adaptei. Fiz um pouco de jiu-jítsu, mas também não gostei. Então, um amigo meu que morava em Regente Feijó (SP) me apresentou o boxe tradicional, que era só punho. Fui lá para poder ver como que funcionava, e, quando fiz pela primeira vez, me apaixonei pelo esporte”, explicou Lucas.
A experiência começou em 2016, por curiosidade, e acabou definindo o rumo de sua trajetória. Na época, porém, a intenção não era competir. A prática surgiu como uma atividade de lazer, voltada ao condicionamento físico e ao interesse pessoal.
A mudança de perspectiva veio alguns anos depois, quando surgiu a oportunidade de disputar um campeonato oficial.
“Eu fui para o Leões do Ringue, de Bauru (SP), onde pude fazer uma luta de sparring [simulação]. Eles gostaram do meu estilo e me deram uma oportunidade de lutar em um campeonato oficial na Forja de Campeões em 2019 [maior competição de boxe para iniciantes do Brasil], onde fiz as minhas primeiras lutas, com quatro lutas e quatro vitórias, no primeiro campeonato”, relembrou.
A partir dali, a rotina de treinos se intensificou e o objetivo deixou de ser apenas “participar” para se tornar “competir em alto nível”.
Lesões e dificuldades
Se atualmente Lucas celebra os 100% de aproveitamento no profissional, há pouco mais de um ano o cenário era de incerteza.
Diagnosticado com uma hérnia de disco na L5, além de um deslocamento na patela do joelho, o lutador viu o corpo “travar” em momentos decisivos, como na final do Campeonato Paulista de 2024.
“Ali eu fiquei muito pensativo. Pensei em desistir, mas mantive disciplina, coragem, foco e fé para seguir em frente”, lembrou o lutador.
A superação não veio apenas do treino técnico, mas de uma reabilitação intensa e do apoio de pessoas que acreditaram no potencial do jovem quando a aposentadoria precoce parecia o caminho mais provável.
Construção dentro do ringue
A chegada à Ferri Centro de Treinamento, em Presidente Prudente, em 2022, marcou um novo momento na carreira.
Sob orientação do treinador Diego Ferri, o atleta passou a integrar uma rotina mais estruturada, com preparação técnica e física voltada para competições. Segundo o treinador, Lucas já apresentava características físicas que chamavam a atenção.
“O Lucas tem uma estrutura de um atleta de alto nível: corpo, altura, envergadura. Ele é um atleta que não foi formado por mim, então ele já veio com uma preparação, com algumas manias e situações que tivemos que modular, principalmente quando ele saiu do amador para o profissional. Inicialmente o que mais chamou a atenção foi a força dele. Um atleta da categoria dele não tem essa essa força, esse ‘punch’… Ele é nocauteador nato e, por isso, o trabalho para o profissional é ideal”, disse Diego.
Ainda de acordo com Diego, o principal diferencial do atleta é a disciplina e a capacidade de manter a constância, independentemente das dificuldades. Ele destacou que Lucas mantém o ritmo de treinos mesmo diante de problemas físicos ou pessoais e demonstra mentalidade competitiva dentro do ringue.
“O maior diferencial do Lucas é não desistir. Ele é um cara determinado, que pode estar machucado, pode estar com a vida pessoal pegando fogo, mas ele vai estar na academia, ele vai treinar, vai persistir, e não só a parte técnica dele, mas, na hora que ele coloca a luva, não importa, ele está ali para vencer”, completou o treinador.
Luta contra equipe de Popó

No combate mais recente, Lucas enfrentou um adversário com mais experiência no boxe profissional e precisou se adaptar ao longo da luta.
Após um primeiro round equilibrado, ele conseguiu ajustar a estratégia e passou a dominar as ações nos assaltos seguintes.
No quarto round, um cruzado de esquerda levou o adversário ao chão, em um knockdown, o que consolidou a superioridade no confronto.
🔎 Knockdown é quando um lutador é derrubado ou toca o chão com qualquer parte do corpo, exceto os pés, após um golpe, mas consegue se levantar antes da contagem de 10 segundos.
“Achei que a luta ia acabar, não imaginava que ele ia levantar. Quando ele levantou, me acalmei para não desperdiçar golpe, não desperdiçar gás, mantive uma concentração para poder encaixar bem e voltar nos próximos rounds para poder finalizar”, contou Lucas.
Mesmo sem o nocaute, o desempenho garantiu a vitória por decisão unânime e manteve o atleta invicto na carreira profissional, agora com dois triunfos em dois combates.
A vitória marcou positivamente o boxe em Presidente Prudente e, se depender da confiança do treinador em Lucas, novos capítulos ainda serão escritos.
“Ele [Lucas] vem de um ano de duas lutas profissionais e duas vitórias. Então, pode ser o Popó, pode ser o Mike Tyson, pode ser quem for, eu sou muito mais o meu atleta. O Popó pode trabalhar 10 atletas, pode trabalhar quem for, o cara pode ser campeão, pode treinar… Mas eu sou muito mais o meu atleta, que está sempre pronto. Na hora que eu marco uma luta, eu tenho certeza que o Lucas vai ser melhor que todo mundo”, expressou Diego.
Além das vitórias, Lucas vê o boxe como essencial para seu crescimento pessoal. Segundo ele, o esporte contribuiu para desenvolver disciplina e a capacidade de enfrentar desafios, dentro e fora do ringue.
“O Lucas pessoa é um Lucas de coração bom, humilde, alegre, que sempre tenta enxergar o lado bom de tudo, independente da tempestade em que esteja. Pode ser o maior problema do mundo, mas não perde a fé, está sempre com o coração alinhado em Deus. O Lucas atleta de boxe é o Lucas que quer mostrar que ele é o melhor, que ele tem um coração cheio de energia, fogo e ele está ali para poder fazer de tudo para conquistar o que ele quer”, reforçou.

Fonte: G1










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