Cadela é adotada por cartório eleitoral, ganha crachá e vira ‘servidora pet’ no interior de SP
Resgatada grávida em 2023, a ‘funcionauria’ divide a rotina com os servidores no atendimento, participa de treinamentos e virou o xodó de eleitores e equipe em Presidente Prudente (SP).
Quem chega ao 402º Cartório Eleitoral de Presidente Prudente (SP) pode encontrar uma “funcionária” que não atende eleitores, não confere documentos e muito menos trabalha diante de um computador. Ainda assim, ela já ganhou crachá, tem caminha própria e é presença garantida na rotina do local.
Vida, uma cachorrinha que apareceu no cartório em março de 2023, virou o xodó dos servidores e também chama a atenção de quem passa por lá.
Com a função de “servidora pet”, ela tem até um crachá que a acompanha durante o expediente (quando não é destruído pelas próprias brincadeiras).
A história dela começou de forma inesperada. Uma eleitora foi ao cartório para ser atendida e contou aos funcionários que havia entrado uma cachorrinha no portão. O animal acabou entrando no local atrás dela.
Inicialmente, os servidores acreditaram que Vida pertencia à eleitora. Mas, quando descobriram que não, passaram a cuidar dela, dando água, comida e, no dia seguinte, levaram a cachorrinha a uma clínica veterinária para verificar se havia algum chip que pudesse ajudar a localizar o possível tutor… que não existia.
Mesmo sem tutor, ela não estava sozinha. Durante o atendimento veterinário, os funcionários perceberam que ela poderia estar grávida.
Um exame de ultrassom confirmou a suspeita, informando que eram cinco ou seis filhotes, com aproximadamente 25 dias de gestação.
Foi quando uma das servidoras, Sarita Alves Polezel, decidiu ficar com ela. Na época, a funcionária morava em um apartamento pequeno e ainda negociava a mudança para uma casa. Para que Vida pudesse permanecer sob seus cuidados, os colegas se comprometeram a ajudar.
A cachorrinha deu à luz em abril daquele ano, na véspera do feriado de Tiradentes. O parto começou por volta da meia-noite e terminou quase nove horas depois. Em vez dos cinco ou seis filhotes estimados no ultrassom, nasceram oito.
A partir daí, o cartório ganhou uma espécie de creche improvisada. Vida passou a frequentar o trabalho acompanhada dos filhotes, que ficavam em um quarto nos fundos do prédio.
“Foi aquele encanto! Todo mundo se apaixonou pelos filhotinhos, todos saudáveis, lindos, e eu levava eles todos os dias para o cartório junto com ela. Tem um quartinho lá no fundo, colocava eles lá, e é uma alegria, um xodó para todo mundo”, relatou Sarita.
Conforme os filhotes cresceram, veio também a etapa das adoções. Alguns ficaram próximos dos funcionários e outros foram encaminhados para novas famílias. Três deles (Ozzy, Ravena e Cacau) continuam próximos da tutora de Vida.
A própria Vida, no entanto, permaneceu como presença constante no cartório.

Cadela é ‘adotada’ por cartório eleitoral, ganha crachá e vira ‘servidora pet’ em Presidente Prudente (SP) — Foto: Sarita Alves Polezel/Arquivo Pessoal
Funcion’au’ria
A ideia de transformar a cachorrinha em uma “funcionária” surgiu entre os servidores, quando um deles teve a ideia de confeccionar um crachá para ela. O documento, feito em preto e branco, tem a foto da cachorrinha, o nome “Vida” e a identificação “servidora pet”.
O acessório, porém, não sobrevive por muito tempo. Vida já perdeu o crachá várias vezes. Segundo a tutora, ela costuma deitar sobre ele ou acabar prendendo a pata no acessório, que quebra e precisa ser consertado.
O nome também tem uma história própria. Quando a cachorrinha apareceu no cartório, alguns funcionários chegaram a chamá-la de “Zoninha”, em referência à zona eleitoral. A tutora, porém, não gostou da ideia. Foi assim que surgiu Vida.
“Eu acho que Vida é um nome bem bonito. Ela veio para nós cheia de vida, porque tinha muitas vidas dentro dela, e nos trouxe também muita alegria, muita vida. Ela é a alegria do nosso cartório. É aquela história: não é terapia, mas é terapêutico”, disse Sarita.
Desde então, a cachorrinha passou a fazer parte da rotina. De manhã, basta a tutora pegar a chave do carro para Vida entender que é hora de ir trabalhar.
Ela acompanha praticamente todos os dias a servidora até o cartório. Lá, tem uma caminha, mas circula livremente pelos ambientes e costuma permanecer próxima da tutora.
Durante os períodos de treinamento, quando o movimento aumenta no local, Vida também participa da movimentação. Funcionários e visitantes costumam parar para fazer carinho e tirar fotos.
Em uma sequência de treinamentos realizados no cartório, por exemplo, a cachorrinha acabou sendo incluída nas fotografias feitas ao fim das atividades: “De fato ela é muito cativante. Todo mundo que vai [no cartório], que a vê, fica encantado”.
O carinho também aparece na rotina dos servidores. A cachorrinha tem medo de chuva, trovões e fogos de artifício e, nessas situações, procura lugares onde se sinta protegida. Quando isso acontece, os funcionários dão um jeito de ajudá-la.
“Sempre tem alguém lá desocupando os armários para ela entrar, para se sentir protegida”, contou a tutora.
Vida a Vida!
Vida também é descrita pela tutora como silenciosa e dócil. Segundo ela, a cachorrinha praticamente não late no cartório e demonstra especial interesse pelas crianças que chegam ao local.
A origem de Vida continua sendo desconhecida. Como ela apareceu aparentemente bem cuidada, sem ferimentos e sem sinais de ter passado muito tempo na rua, os funcionários chegaram a suspeitar que pudesse ter um tutor.
Segundo Sarita, em 2023 os veterinários informaram que ela aparentava ter 3 anos, o que leva a crer que ela tenha em torno de 6 anos atualmente.
Quatro meses depois de chegar ao cartório, Vida foi castrada, identificada com chip e passou por exames veterinários.
Atualmente, a cachorrinha divide a rotina entre a casa da tutora e o cartório onde apareceu há mais de três anos. Para quem trabalha no local, a presença dela acabou se tornando parte do expediente.
Para a tutora, porém, a relação vai além da companhia durante o trabalho. Vida se tornou uma parceira de todos os dias. E, mesmo sem exercer uma função oficial, a “servidora pet” já parece ter encontrado seu lugar entre os colegas.
“Ela é realmente um presente de Deus na minha vida e acho que na vida de todos nós ali do cartório”, concluiu a tutora.
Fonte: G1



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